Edson Vidigal

Alguns remorsos

Como o tempo muda as coisas. Num encontro, em 2015, com padres e freiras, incluindo um Bispo, no Instituto Lula, em São Paulo, o homem parecia um comparsa da verdade, de tão inspirado.

Nada do que resultou nestes tempos de agora, ainda inundados de incertezas e ansiedades, quando a Operação Lava Jato sob a inspiração do Juiz Moro e ações profissionalíssimas, dir-se-ia igualmente cívicas, do Ministério Público e da Policia Federal começava a abrir as cortinas do passado, quando isso tudo aí ainda parecia inimaginável, o Lula falando a religiosos católicos em São Paulo, desabafou:

– A taxa de aprovação da companheira está no volume morto.

Os paulistanos viviam então sob um rigoroso racionamento de agua porque não obstante as chuvas alagando o País em muitas regiões o precioso liquido não caia em quantidade suficiente para tirar do volume morto as seis represas do sistema Cantareira.

– Dilma está no volume morto, o PT está abaixo do volume morto, e eu estou no volume morto. Todos estão numa situação muito ruim. E olha que o PT ainda é o melhor partido. Estamos perdendo para nós mesmos — disse Lula.

E seguiu falando:

– Acabamos de fazer uma pesquisa em Santo André e São Bernardo, e a nossa rejeição chega a 75%. Entreguei a pesquisa a Dilma, em que nós só temos 7% de bom e ótimo. O momento não está bom. O momento está muito difícil.

Ao entregar a pesquisa a Dilma, Lula tentou conforta-la:

– Isso não é para você desanimar, não. Isso é para você saber o que a gente tem, que a gente tem que mudar, que a gente pode se recuperar. E entre o PT, entre mim e você, quem tem mais capacidade de se recuperar é o governo, porque (o governo) tem iniciativa, tem recurso, tem uma máquina poderosa para poder falar, executar, inaugurar.

Na interlocução, os clérigos, uns trinta, incluindo o bispo D. Pedro Luiz, naquele tom usual de confessionário, um de cada vez, é lógico, deram lá seus conselhos, inclusive que o partido retome as liturgias do começo, quando atuava mais ao lado dos trabalhadores.

Lula acusou Dilma de ter distanciado o Governo dos mais pobres.

– Ela tem dificuldade de ouvir até mesmo os conselhos que eu tento lhe dar. Falar com a população não é agendar para falar na televisão. É viajar e falar.

Revelando o truque:

– Na hora que a gente abraça, pega na mão, é outra coisa. Política é isso, olhar no olho, passar a mão na cabeça, o beijo.

Sobre o terceiro andar do Palácio do Planalto, onde a Dilma passa a maior parte do tempo:

– Aquele gabinete é uma desgraça. Não entra ninguém para dar boa notícia. Os caras só entram para pedir alguma coisa. E como maioria que vai lá é gente grã-fina… Só entrou lá um leproso (hanseniano) porque eu estava no governo. Entrou catador de papel porque eu estava no governo. Essa coisa se perdeu.

Lula contou que sugeriu a Dilma viajar por esse país, botar do pé na estrada:

– Petista não pode ter medo de vaias. Uma das armas para recuperar a combalida gestão é investir num Plano Nacional de Educação. O problema é que o próprio PT desconhece o conteúdo do plano.

Numa noite, semanas antes, Lula esteve a sós com Dilma numa sala do térreo do Palácio da Alvorada.

Na antessala, esperavam-nos Wagner, Mercadante, Roseto e Falcão. Lá para as tantas, os tons das vozes foram se alterando e deu para ouvir aquela voz rouca, inconfundível:

– E você sabe qual foi o maior erro político que eu cometi na minha vida? Botar você nesse lugar. E o maior erro político da Dilma, qual terá sido?

Como o tempo muda as coisas. Dias depois do encontro com os clérigos, uma forte gripe isolou o homem em seu apartamento em São Bernardo do Campo. Dona Marisa cuidando dele:

– Tomou a vacina, Lula?

Não estaria com bom humor para a pergunta:

– Qual? Aquela que dizem que mata velho?

Edson Vidigal, advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal.

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