Com mais de 60 anos de dedicação, cantador une forças para preservar sotaque costa de mão

Na luta pelo resgate da tradição do bumba meu boi sotaque costa de mão – ritmo peculiar da região do Litoral Oriental do Estado –, o Governo do Maranhão, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e os próprios representantes da cultura se unem pela preservação da identidade do grupo folclórico. 

Na luta pelo resgate da tradição do bumba meu boi sotaque costa de mão – ritmo peculiar da região do Litoral Oriental do Estado –, o Governo do Maranhão, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e os próprios representantes da cultura se unem pela preservação da identidade do grupo folclórico.

Marcante pela batucada entoada pelo movimento das costas das mãos dos brincantes ao tocar nos pandeiros, o sotaque tem origem em Cururupu e possui um ritmo mais lento que os bois de matraca. Os tambores-onça e os maracás também complementam a sonoridade desses grupos. Quanto aos personagens, destacam-se os vaqueiros campeadores e de cordão, os tapuias (uma espécie de estrangeiro que não pertence a tribo), os tocadores e as índias.

Quem conta um pouco da luta e da história do sotaque costa de mão é um dos conservadores do estilo, o cantador e proprietário do Boi Sociedade de Cururupu em Tagipuru, Umbelino dos Santos Pimenta, conhecido pelos mais íntimos como Belo.

Com 75 anos de idade, ele relata que mais de 60 deles foram intensos dentro das brincadeiras. Umbelino está entre os nomes mais fortes e resistentes dessa cultura, e não é à toa. Ele mantém o seu próprio boi há 40 anos. Belo conta que a paixão pelo bumba meu boi começou quando ainda era garoto, por volta dos 10 anos, quando seu pai de criação custeava as apresentações dos bois nos festejos de São João, na cidade de Cururupu.

Nesse período, em 1953, ele já quebrava todos os protocolos, e além de brincar nos boizinhos infantis, por volta dos seus 8 anos, ele também acompanhava os adultos nos bois oficiais da época.

“Quando acabava as apresentações das crianças, eu pegava meu maracazinho e ia pro boi de gente grande. Sempre gostei. Com isso, eu peguei o costume… Eu brincava era de vaqueiro e tinha, como ainda tenho, muito orgulho do que fazia, representando minha cultura e minha origem. Sempre tive na minha consciência de que o bumba meu boi é um brinquedo que traz diversão, mas é um brinquedo sério”, conta.

De volta

Quando se fala da tradição do boi sotaque Costa de Mão, seu Belo se emociona e relata que durante estes 40 anos em que realiza a brincadeira, como proprietário, muitas perdas aconteceram. “Às vezes eu paro e penso que já foi a época do costa de mão. Ele já esteve no páreo entre as melhores brincadeiras do nosso estado, mas com o tempo foi se perdendo. Eu lembro que tínhamos por volta de 18 bois neste sotaque. Era o meu, do meu irmão, tinha uma senhora que tinha um na Vila da Conceição, entre outros.  Tivemos que lutar muito para sair do grupo C do São João, e nos tornar do grupo A. Penei muito para levar o nome do costa de mão e tomara que agora a gente possa levantá-lo”, diz Belo.

Enfatizando a questão, Umbelino disse que este é o momento de resgatar a tradição. “Temos muito caminho andado e de missão cumprida. Estamos precisando só de um empurrãozinho, que eu acredito que agora vá com essa parceria do Iphan e do Governo apoiando a gente. Tendo esse empurrão, o costa de mão sobe. Olha o tipo de indumentária que a gente tem. Olha a força de vontade que nos colocamos nessa festa!”, expressa o cantador.

Umbelino atrela o risco de extinção do sotaque costa de mão ao desestímulo dos jovens da atualidade. “Hoje tem muitos sotaques de bois, e esses outros que surgem vêm tirando a nossa atenção. O povo que nasce agora não quer saber de tradição, então vai se perdendo, vai se deixando de lado. Esses jovens querem saber daquela boniteza, que mostra o corpo, mas não querem saber das raízes, do que ficou lá atrás. E é isso que está acabando com a nossa brincadeira. E nós não podemos ficar de braços cruzados, temos que criar uma forma que eles enxerguem a gente para que essa tradição seja eternizada”, diz.

Tradição e inovação

Para o São João 2018, ano em que o sotaque costa de mão está sendo homenageado, Umbelino trará na estampa do Boi Sociedade de Cururupu em Tagipuru a representação da natureza com rios, as variações do sol (nascendo e se pondo), o céu, as palmeiras do coco babaçu, os verdes da mata e uma índia em meio ao tempo. “A gente precisa manter a tradição, mas também precisamos atrair o grande público e essa vai ser uma das nossas novidades”, detalha Belo.

O gestor do Patrimônio Imaterial do Estado, Neto Azile, diz que a ideia é fazer uma ação de preservação e valorização destes grupos. “No período bem passado, eram 18 grupos de costa de mão e hoje existem apenas 6 grupos. E no ano passado dançaram apenas 4 grupos. Com o trabalho de resgate dessa tradição conseguimos credenciar para o São João do Maranhão 7 grupos que vão se apresentar nos arraiais”, comenta.

Ele reitera que a ideia é dar visibilidade para que as pessoas possam conhecer o sotaque e sua peculiaridade, devido à marca bastante forte de sua matriz africana dos quilombos, da área do Litoral Oriental Maranhense. “A marca desse sotaque é a percussão, que vem dos pandeirões, além das vestes que são de ricos bordados tradicionais prensados em bermudas e coletes em veludos. Outra característica deste sotaque são os chapéus em formato de cone e fitas coloridas”, enfatiza.

O Governo do Maranhão tenta resgatar nesse processo a proposta que surge com a parceria com o Iphan, que em 2011 reconheceu o bumba meu boi como patrimônio cultural e imaterial brasileiro nos cinco sotaques. “É uma preocupação do Iphan a extinção de um destes sotaques que pode comprometer o título. O Governo entendeu que precisava realizar as medidas de salvaguarda, medidas de proteção para preservar esta tradição e está atuando para isso”, complementa.

Uma das medidas adotada pelo Governo foi tirar esses bois do processo seletivo e colocá-los diretamente no quadro de apresentações em todos os arraiais oficiais, onde estes grupos abrirão todas as noites a programação.

“Temos que mostrar para todas as comunidades para que elas possam conhecer os grupos e a partir daí dar a maior valorização. Além desse momento da festa, todas as casas de cultura do Estado estarão com exposição de suas indumentárias e suas características. Teremos, também, diálogos e rodas com mestres, além das apresentações nas próprias comunidades destes grupos”, orienta.

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