Edson Vidigal

Enganadores e Enganáveis

Para os que estão chegando, o susto, a surpresa, a herança maldita. Como estariam agora sem a grande desculpa da herança maldita?

As alegrias de quintal que levaram às festas da vitória e recentemente às solenidades da posse só não estão totalmente murchas porque as ansiedades latentes ainda esperam pelo fim sem piedade da herança maldita.

Todos se queixam de rombos no orçamento público, de gastos absurdos que transcenderam em muito as arrecadações e que com essa herança maldita não vai dar.

Então, não sabiam nada das terríveis dificuldades com as quais, em todos os quesitos – políticos, administrativos, econômicos, fiscais, financeiros, sociais, incluídos segurança pública, educação e saúde, – teriam que encarar?

A campanha eleitoral, desde as eleições na antiguidade, tanto na velha Grécia quanto na Roma antiga, tinha uma função didática. Era o momento em que os pretendentes aos cargos se escancaravam aos olhares dos eleitores que, ao final, se decidia pelos melhores.

Os melhores tinham que ser os mais bem avaliados em todos os quesitos indispensáveis ao exercício da função pública. Não bastava que fossem bons oradores, pessoas cultas, de saber e experiência incontestáveis.

Tinham que ter igualmente um passado com história de bons exemplos, que lhe rendessem respeito, admiração, enfim o que ainda hoje se exige constitucionalmente aos postulantes a cargos da magistratura, do ministério público e das cortes de contas – o indispensável notável saber e a imprescindível reputação ilibada.

Os partidos políticos, instituições sobre as quais há registros históricos inclusive na antiga Judeia, faziam a triagem. Filtravam os nomes. O cardápio de candidaturas que então se oferecia aos eleitores era instigante. De tantos bons nomes.

O direito eleitoral no processo civilizatório se foi se afirmando assim, nessa coerência. A seleção dos melhores por cada partido para candidatos e a eleição dos melhores dentre os melhores candidatos para serem eleitos.

O tempo da campanha eleitoral era para ser sempre o tempo das questões do tempo de legislar e governar. Dos embates das ideias. Das formulações verdadeiras para o enfrentamento eficaz do que atazanando as relações entre a sociedade e o poder público tem que superado. Enfim resolvido.

Vemos isso hoje pelo avesso do avesso. Ah os Senadores! Os Tribunos do Povo! Os administradores das Civitas! Os Governadores das Satrapias! Na Grécia, em Roma, na Europa, nem mesmo nos antigamentes deste Brasil, os estadistas ousaram a esfarrapada desculpa da herança maldita.

Para os eleitos e os reeleitos destas touradas, segue a advertência, aliás, sempre oportuna, do Presidente Abraão Lincoln:

– É possível enganar um Povo por algum tempo. É possível enganar parte do Povo por um certo tempo. Mas não se pode enganar o Povo todo o tempo todo.
Parte do Povo no Brasil já sabe disso. Mas a maioria do Povo, em seu analfabetismo político decidindo as eleições, ao que parece, ainda vai ter que apanhar muito sob a pancadaria da politicalha, a qual sustenta a desigualdade para poder, assim, gerar mais dependência entre maioria pobre de tudo, até de espírito, sob o manto protetor corrupto de um Estado insuportavelmente burocratizado e de formatação totalitária como ainda é este Estado do Brasil.
Não é possível enganar o Povo todo o tempo todo.

Edson Vidigal, Advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal.

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