ARTIGO | A miragem democrática

Contemplo a imensidão desta praça e a imagino inteiramente ocupada, como dizem que foi, por uma multidão em plena euforia a festejar a vitória eleitoral de Putin nas eleições presidenciais deste ano.

Wladimir Putin, ex-agente da KGB, caiu nas graças de Boris Iéltsin, o primeiro Presidente eleito após a renúncia de Gorbachev.

Iéltsin, um respeitado engenheiro de obras no governo comunista e político de grande simpatia popular, corpulento e despachado, sofrendo de complicações coronárias e incontornáveis pressões politicas, não concluiu o seu segundo mandato. Teve que renunciar.

Quando fazia tempo frio, agasalhos de lã não lhe bastavam. Iéltsin aquecia-se melhor com bons tragos de um destilado branquinho de uma qualidade impar, que a Rússia produz e exporta para o mundo, menos para a União Europeia.

Hillary Clinton conta em seu primeiro livro de Memórias sobre o afeto com que foram marcadas as relações pessoais dela e de Bill com o primeiro Presidente eleito da Rússia. Em alguns encontros na Casa Branca, Boris se segurava bem na fala ou no trocar das pernas nunca transparecendo que sua euforia tinha muito a ver com a vodca.

Uma vez, na Blair, anexo da Casa Branca, onde ficam os hospedes oficiais, o então presidente russo tomou um porre, driblou a segurança, achou um porão e a saída para Avenida  Pensilvânia. Encontrado só de cueca, explicou que sentira vontade de comer uma pizza.

Hillary, conta que apreciava aquele jeitão meio traquina, de humano dele. Essa vontade do Boris de tomar um porre e sair seminu de madrugada pelo porão da Casa Branca à procura de uma pizzaria não está no livro dela.

Com aquela aparência de bom garoto, caladão, bem comportado, Putin foi ficando ali na sombra, sem se incomodar e pouco incomodando, como Primeiro Ministro, nomeado por Iéltsin.

No regime semipresidencialista, não há Vice Presidente. Putin tornou-se o sucessor natural quando Iéltsin renunciou.

Como Presidente provisório, convocou eleições, candidatou-se e ganhou. De lá para cá vem se revezando na gangorra do poder com Dmitri Medvedev.

Em 2014, quando concluir o seu atual mandato, Putin terá ultrapassado em tempo no poder o ultimo czar Nicolau II, assassinado por ordem de Lênin, após a tomada do Kremlin pelos comunistas, quando somava 22 anos como Imperador da Rússia.

Se tudo transcorrer bem com a atual Constituição da Rússia, que dá ao Presidente o alivio de não ter Vice e mandato de 6 anos, mas com direito a apenas uma reeleição consecutiva, Wladimir Putin só terá um mandachuva a ter estado por mais tempo no poder do Kremlin – Josef Stálin, que governou a Rússia por ininterruptos 30 anos.

Para quem vinha observando os movimentos de Putin como Presidente e candidato à reeleição, o resultado final lhe atribuindo mais de 70% dos votos, deixando para trás 7 concorrentes, não causou surpresa.

A multidão carregada de euforia a gritar-lhe o nome acenando bandeiras em alegrias de saudações lotou a praça vermelha em referendum ao que saiu das urnas.

Mas para o blogueiro Alexei Navaluy, 41 anos, não foi bem assim. Houve fraude e abusos de poder. Imagine uma eleição num País com 11 fusos horários. A Rússia tem 11 fusos horários. Disparado nas pesquisas, ameaçando Putin nas intenções de voto, foi tirado da campanha condenado por  um tribunal. Não pôde nem votar.

Numa pesquisa do The Economist, publicação das mais influentes no mundo, a Rússia se veste com roupas de  democracia, mas ainda é um Estado totalitário. Entre 177 países pesquisados é o 135º em índice de democracia. Só perde para a China, que ainda se assume comunista, sem liberdade de imprensa e sem pluralidade de partidos.

Putin, 65 anos, candidato independente apoiado pelo partido de centro, Rússia Unida, obteve 76,69% dos votos. O seu mais próximo opositor foi o milionário Pavel Grudinin,57 anos, gestor de um sitio de morangos, candidato pelo Partido Comunista, que obteve 11, 77% dos votos.

A Constituição da Federação da Russia impõe ao Presidente da República ao tomar posse o seguinte juramento:

-“Juro, no exercício dos plenos poderes de Presidente da Federação da Rússia, respeitar e proteger os direitos do Homem e do cidadão, vigiar e defender a Constituição, proteger a soberania e a independência, a segurança e integridade do Estado e servir fielmente ao povo.”

Pelo visto, o comunismo na Rússia não está com nada.

Edson Vidigal, Advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal. Esteve em Moscou recentemente.

ARTIGO | A Rússia deve um mandato a Gorbachev?

Os polegares do Casagrande, o comentarista da TV Globo, parecem mecânicos de tão ágeis e aparentemente incansáveis sobre o teclado do celular.

Fui pegar no meu apartamento o livro sobre o Gorbachev e o Casagrande, parceiro do Galvão e do Ronaldo, ainda segue ligeiro na mensagem que digita.

O movimento na ante sala do hotel parece não perturbar o antigo craque da nossa seleção, que ressuscitado de um alcoolismo brabo, dizem os seus amigos e familiares, e ele também, é agora outro homem.

Tenho muito respeito por pessoas assim, que se reinventam e seguem tocando a vida em frente, sem ódios e sem traumas.

Quando Mikhail Gorbachev chegou ao poder como Secretário Geral do PC na União Soviética, o comunismo já estava mal das pernas, quase nem andando por lá e mundo afora.

Gorbachev percebeu que o muro de Berlim era um outdoor escancarado ao mundo livre denunciando o opróbio de um regime politico apodrecido que, como os demais do seu naipe, só conseguia se manter sob a opressão em suas diversas formas.

Bem antes de Gorbachev, as atrocidades dos ditadores comunistas, dentre os quais Stálin, tido como o mais malvado, já haviam sido reveladas por Nikita Kruschev, outro governante proibido de ter um tumulo no Kremlim. Fidel Castro o odiava por não tê-lo deixado explodir um míssil sobre os Estados Unidos.

As insatisfações populares na Rússia e seus países satélites já eram irrefreáveis quando Gorbachev assumiu. Em Moscou, o céu está sempre azul. E ainda se fala de um lugar onde o sol aparece à meia noite.

Foi quando Gorbachev lançou os seus dois audaciosos projetos – a perestroika para a reconstrução econômica e a glasnot para a abertura politica. Nunca na Rússia, nem no Império czarista nem nas ditaduras soviéticas, ninguém votou em eleição direta.

A pressão do mundo ocidental, capitalista, sobre a Rússia e todo o resto da chamada Cortina de Ferro, gaseificou a debacle econômica e a crise politica que Gorbachev intentava debelar.

A certa altura, teve aquele rolo da tentativa de deposição de Gorbachev pelos generais da linha dura. Boris Iéltsin, então Deputado, opositor das politicas do Presidente porque queria mais velocidade nas mudanças, interveio parando os tanques a serviço do golpe e libertou Gorbachev, àquela altura um preso politico. Preso comum, condenado por crime comum, é outra coisa.

Mais adiante, Gorbachev renunciou à Presidência da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e declarou extinto o cargo.

Convocadas eleições diretas para o novo cargo de Presidente da Rússia, candidataram-se Boris Iéltsin, Genady Ziuganov  e Mikhail Gorbachev.

Estava na cara que Gorbachev iria perder, e feio, aquela eleição. Do lado de fora da sessão eleitoral, onde votou,  falou:

– A realização destas eleições significa que já obtive uma vitória. Fui eu que propus as eleições neste País. Uma batalha só é considerada perdida quando o próprio comandante renuncia a ela. Nada pode me humilhar, nem as pesquisas, nem o poder. Nenhuma força pode humilhar um homem se ele se sente confiante, mantém a dignidade e a defende. Vocês tem diante de si um homem assim.

Gorbachev, viúvo de Raissa, vive em Moscou ao lado da filha Irina e das duas netas Xênia e Anastásia. Preside a fundação que tem o seu nome e a Cruz Verde Internacional, uma organização ambientalista.

Edson Vidigal, Advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal. Esteve em Moscou recentemente.

ARTIGO | Condecorações à Venda

A ursa maior da noite começa a derramar trevas trazendo noite a Moscou. É quando as avenidas se esvaziando do rush de fins de tarde aos poucos parecem acolher silêncios, mas qual nada, o sossego é aparente.

Nessas avenidas um tanto compridas, que nem se imagina onde irão terminar, não há faixas especiais para pedestres. Há passagens subterrâneas.

A noite vai se firmando em penumbras e os automóveis com seus motores e escapamentos assustadores em seus tons diversos transmudam as avenidas em autopistas.

Num degrau um pouco acima do chão da escadaria de onde é possível avistar iluminado Teatro Bolshoi, um homem exibe medalhas antigas numa toalha.  A entonação da sua voz é mais de pedinte que de vendedor.

Que histórias estão ali condensadas? Quais feitos patrióticos? Quais serviços prestados ao Estado soviético? Aquelas medalhas, e não são tantas, estamparam orgulhos, estufaram egos de quantos camaradas? Ou aquelas sínteses, reflexos de bons feitos, seriam pedaços da vida daquele homem?

A idade que o homem das medalhas aparentava e o seu ar sofrido realçando lhe a barba descuidada, branca à lá Dostoiévski, faziam-lhe parecer algum rascunho de alguém saído de alguma trama, talvez do romance de Tolstói – Guerra e Paz.

Algum veterano, mas de qual guerra? O certo mesmo é que tendo sido as medalhas conferidas ou não a ele, a única razão de estar ali aquele homem e suas poucas medalhas, se resume a uma condição de extrema necessidade.

Se ele era um mendigo, sob o manto invisível da noite, foi o único que vi em Moscou nesta temporada. O que não posso dizer quanto a putas. Nossa mãe, como despontavam óbvias nas lanchonetes dos calçadões ou em desfiles tão ululantes  pelas entranhas dos hotéis. Sem abordagens constrangedoras como as de Las Vegas.

Cercado por grades de ferro, o Bolshoi é mantido a longa distância de quem passa. Nesta noite Putin está lá com os Presidentes da França e da Croácia, que assistirão amanhã a finalíssima da Copa do Mundo entre as seleções de seus países. Câmeras de TV são mantidas do lado de fora.

Nas avenidas de menor movimento, a liberdade se espraia pelas calçadas ou lá dentro dos inferninhos entre copos e bocas, amassos e beijos.

A juventude russa em Moscou tem seus carrões – BMW, Mercedes, Toyota, Honda, símbolos do capitalismo chegante mais fáceis de identificar.

Sabe o Lada, aquele automóvel que por algum tempo fez brilhar os olhares coçando os bolsos da esquerda brasileira? O Fernando Henrique, então Ministro da Fazenda do Itamar, tinha um, cor vermelha, em Brasília, na garagem da SQS 309, a quadra dos Senadores.

Embalado pelos ótimos ventos do Plano Real, que ele coordenara à frente da mais brilhante equipe econômica jamais recrutada, o Fernando, já àquele tempo começando a ser o FHC, saiu candidato a Presidente da República para suceder ao Itamar. Ganhou do Lula logo no primeiro turno.

Fora do Ministério e decidido a não usar, enquanto candidato, carro oficial, foi à garagem pegar o seu Lada, o carro russo, vermelho. Chave no contato, ió-ió-ió… E nada do Lada pegar. Ió-ió-ió, nada. O homem queria começar sua arrancada para a Presidência dirigindo o seu Lada. Saiu da garagem empurrado. La fora, pegou no tranco. Que nem banda de rock.

A Lada russa agora reduziu a sua produção em 44%. Está difícil para o urso competir com o touro de Wall Street. Estou sabendo agora que a Renault, em sua montadora de Curitiba, vai lançar no mercado brasileiro, a preço camarada, o Lada clássico em seu modelo soviético.

Ah, quanto às medalhas, as condecorações do antigo império soviético, agora se pode comprá-las no grau que se quiser no Mercado Livre, pela internet.

Edson Vidigal, Advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal. Esteve em Moscou recentemente.

ARTIGO | Levando Uisque

A porta de saída do museu te joga numa rua de pedestres, exclusiva, mas nem por isso aberta a algum sossego.

Há shoppings dos dois lados e bares nas esquinas.

A menos de um quilometro, uma bandeira do Brasil assume destaque na paisagem turbulenta.

A animação é uma só. Regada à cerveja. Como se sediasse uma liga das nações muito solta, doidona, a céu aberto, a rua fechada aos carros aninha grupos de todos os cantos. De todos os cantos, não. De todos os cânticos e entonações, certamente.

Amanhã termina a Copa na Rússia, mas a turba parece querer prorrogar a alegria. O Brasil fora da final, mas os brasileiros que ficaram, e foram muitos, seguem no clima.

As bandeiras que agitam, preferencialmente, são as da Croácia, da França, da Rússia, do Brasil. Auriverde pendão da minha terra, que a brisa do Brasil beija e balança!

Por um segundo imagino que deveria ter levado uma bandeira do Maranhão. Lá, me declaro torcedor do MAC, o velho bode gregório, o Maranhão Atlético Clube.

E eu sempre me liguei tanto em futebol que nem sei se o Maranhão ainda existe. O Vitória do Mar ainda existe? O Ferroviário ainda existe? Na Feira do Paraguai, em Brasília, vi um cara vendendo camisas do Sampaio Correa, o de maior torcida em São Luís.

Em São Paulo, meu time é o SPFC, o São Paulo Futebol Clube.

Nada de Corinthians, dono do Itaquerão, o estádio cuja  construção foi orçada, a época, em 1 bilhão e 200 milhões de reais. O BNDES caiu com 400 milhões a serem pagos em 12 anos a juros moles. Hoje, só a Caixa Econômica Federal tem mais de um bilhão de reais a cobrar. É o time do Lula.

Aqui, na rua onde o oxigênio só não totalmente puro porque há um bafo de onça, ou melhor, talvez, um bafo de urso, uns brasileiros gritam em português bem claro – Lewandowisk, Lewandowiski e outros respondem Levandouisque, Levandouisque!

E tome mais cerveja no canecão à moda alemã e mais agito com a bandeira brasileira. Lewandowiski, Levandouisque!

Tenho para mim que, embora a pronúncia seja a mesma com que nos referimos em Brasília ao nosso estimado Ministro do Supremo, a alegria dos nossos patrícios esteja a se referir ao Robert Lewandowsk, o festejado atacante de 29 anos, requisitado do Bayern de Munique, Alemanha, para a seleção do seu país, a Polônia. A qual não demorou e logo ficou fora. Que nem o Brasil.

Não achei engraçada aquela curtição dos rapazes brasileiros. Notei que não havia moças entre eles. Alguns barbados, na moda globalizada destes tempos.

Não houve loja que tivesse bandeira do Brasil. A preço salgado, encontramos camisas amarelas do Brasil. Mas com o Brasil fora o que eu iria fazer vestido de amarelo no estádio Lênin vendo a final entre França e Croácia?

Bandeira da França não havia. As últimas já haviam sido distribuídas pelo embaixador na recepção ao Presidente Macron. Comprei um boné azul francês.

Mas o que me chamou a atenção imensa praça à entrada do estádio foi a enorme estatua do Lênin. O cara de colete e terno, e um sobretudo nos ombros, exubera elegância e simpatia. No bronze.

Edson Vidigal, Advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal. Esteve em Moscou, é claro.

ARTIGO | E Línguas Como Que de Fogo

Na região dos três santos, conhecida como do ABC paulista, o primeiro é Santo André. Entre nós pouco se sabe sobre esse senhor, o qual então jovem, após conviver com João Batista, aderiu ao Cristo.

André e seu irmão Pedro foram, dentre os discípulos, os que, talvez, mais assimilaram o legado do Cristo e daí reconhecidos como os mais influentes e ativos propagadores da fé cristã.

Mateus? Ah, Mateus, foi o grande repórter. Ninguém quanto ele contaria essa história tão bem, em textos tão claros.

O brutal assassinato do Cristo expos à história as vísceras de uma briga entre os que professavam ideias novas, sadias, ideias do bem e os que contra o Cristo temendo os novos tempos preferiam a comodidade sob os conformes dos antiquados e oligarcas.

Foi o Cristo ser arrancado fisicamente da cena e os irmãos Pedro e André, não deixando cair a peteca, adentrarem em novas jornadas por geografias sem mapas nem rascunhos, íngremes, onde só havia pagãos.

Enquanto Pedro, a quem o Cristo incumbira a fundação da Igreja, o que se deu em Roma, de onde ela pontifica vetusta, irradiante, soberana até hoje, coube a André correr o mundo em prédicas de evangelização.

Há mais de uma hora nessa viagem pelo tempo no Museu de História do Estado, em Moscou, sem guia oficial, mas com a Eurídice, indispensável na vida e na tradução, não me escapa, de um certo ponto de vista, o quanto a relação Igreja e Estado com o fluir do tempo foi se firmando em união de forças indissociáveis.

A história oral atravessadora dos tempos conta que André, quando nem de longe imaginaria ser o Santo Padroeiro da Rússia, passou com suas demandas de fé cristã por Cítia, Épiro, Acaia, Hélade, Capadócia, Galácia e Bitínia.

André pregou também em Capadócia, Galácia, Bitínia e Bizâncio, onde fundou a Igreja Cristã local e nomeou Eustáquio como Primeiro Bispo.

As Igrejas Cristãs se constituíam em bases autônomas sujeitas ao poder da fé e vínculos diretos apenas com as suas comunidades. Não tinham Papa.

Naquele tempo, como diriam os Evangelhos, em plena ignorância política e em total paganismo, o Poder dos Monarcas, à moda mais antiga dos gregos e dos romanos, reverenciavam os deuses que mandavam esculpir em pedra ou madeira.

Os deuses do Poderosos eram, portanto, os deuses do povo em geral, ignorante, servo e pagão. Essa manipulação de dominadores sobre dominados sempre houve. E quando se imagina ter se rompido um grilhão logo este se refaz e se fingindo de novo se ocupa em destilar novamente o mesmo veneno.

O cristianismo então, dispensando-se daqueles deuses do Olimpo grego e dos deuses do Templo romano, despontava da língua dos apóstolos e de seus seguidores como algo impossível de ser aceito, portanto, que matando literalmente os seus pregadores e seguidores seria possível abortar por atacado a sua viabilidade.

Mais tarde, a adesão do Império Romano ao cristianismo reativou a força do Estado deixando, na contrapartida, os cristãos em paz.

Todas as Igreja cristãs no mundo seguiam sendo uma só até que lá para tantas, no ano de 1054, os clérigos cristãos do Oriente, russos e gregos inclusos, pipocaram suas divergências com a autoridade do Papa, o Bispo de Roma.

As objeções azedaram as relações do Vaticano com as Igrejas do Oriente quando o Papa Leão IX mandou um Cardeal de Roma para chefiar os cristãos da Turquia.

Leão IX reagiu excomungando o líder dos protestos, o clérigo Miguel Cerulário, o qual, por sua vez, excomungou todos os católicos. De dentro pra fora ou de fora pra dentro.

(Faz lembrar o Luís Rocha, Governador do Maranhão, o qual entre uns desentendimentos com a Arquidiocese, foi ameaçado de excomunhão, disse que aquilo não era problema porque continuava católico e tinha ao seu lado o Padre Manoel, então Prefeito de São Domingos, seu correligionário e amigo, que lhe daria a hóstia da comunhão.)

O pavio do estopim que dividiu para sempre os cristãos católicos do Ocidente e os do Oriente foi a definição do Vaticano pela língua oficial. Roma impôs o Latim. Os cristãos católicos não queriam desprezar o grego e o hebraico.

A raiz cristã católica é a mesma. As Igrejas é que são diferentes – a Católica Apostólica Romana e a Católica Ortodoxa predominante na Rússia, na Grécia e com presença forte em dezenas de países.

O chamado Cisma do Oriente só confirmou a grande sacada tropicalista tirada do Apocalipse, Atos 2:3 – “E línguas como que de fogo tornaram-se invisíveis. E se distribuíram e sobre cada um deles assentou-se uma. E todos eles ficaram cheios de espírito santo e principiaram a falar em línguas diferentes.” (Gilberto Gil, Objeto Simi-Identificado,  gravadora Phillips, 1969).

Edson Vidigal, Advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal. 

ARTIGO | A águia bicéfala

Símbolo da identidade nacional, a águia russa tem duas cabeças. A águia americana e a águia alemã têm dois olhos cada e uma só cabeça.

Na mitologia grega, é associada a Júpiter, o maioral do Olimpo. E lá, águia única, conhecida apenas como Fênix, incinerada num grande incêndio, mostrou-se capaz de ressuscitar das próprias cinzas.

Isso de águia de duas cabeças foi coisa saída da cabeça dos romanos. Não podendo grelarem um olho no padre e o outro na missa, quero dizer, segurar ao mesmo tempo o seu império sobre os povos do ocidente e do oriente, inventaram então a águia bicéfala.

Os povos colonizados nunca tinham visto aquilo e, claro, morriam de medo. Se uma águia com apenas dois olhos, como a grega do Olimpo, tinha tanto carisma, um olhar perspicaz com que encarava o sol de frente, irradiando força, inteligência, temeridade e poder, pensem então aí, seus bestas, numa águia com quatro olhos e duas cabeças.

A águia de César, esculturada em ouro ao topo de um grande cetro, – e ele não se largava dela nem para dormir nos acampamentos durante as guerras – tinham, sim, duas cabeças, uma com olhar sobre Roma, a oeste, e a outra com o olhar grudado em Bizâncio, a leste.

A águia bicéfala, símbolo da identidade nacional da Rússia, e data de mais de um milênio, referenda num carimbo do Banco Central a cédula de 1.000 (mil) rublos. Do mesmo tamanho em largura e altura da nossa cédula de real.

Aquieto o olhar me admirando do que estou vendo. Na extremidade, em cima, a figura de um urso polar em marcha, carregando no ombro uma arma de época mais remota, talvez aquela machadinha de cabo longo dos filmes de guerras antigas.

Entre esses dois símbolos nacionais da Rússia, no centro à direita, São Basílio e no verso da cédula, a famosa Catedral do propriamente dito.

Impressiona-me a mensagem da cédula de 1.000 (mil) rublos. A fé religiosa que o poder do Estado soviético intentou, por décadas, arrancar do espirito das pessoas, desponta ali rediviva em forte aliança entre o Kremlin e a Igreja Cristã Ortodoxa.

Retiro da carteira do passaporte uma cédula de 100 (cem) reais. Se parecem, nas cores. No mais, afora o valor monetário, eis que a unidade do real brasileiro vale muito, mas muito mais que um rublo russo, o meu olhar não se admira com o que é mostrado na cédula brasileira à guisa de símbolo nacional.

O que é mostrado em nossa cédula de 100 (cem) reais em nada reflete simbolismo algum da nossa verdadeira identidade nacional, ainda bem.

Ora, ó meu, é impossível se orgulhar com a cara de uma mulher que, além de feiosa tem os olhos cegados, um par de lábios trancados, inúteis, exalando um sentimento nada a ver com a alma do Brasil.

No verso da cédula de 100 (cem) reais, um peixe nadando com a identificação – garoupa. E uma bobagem de autógrafos do Ministro da Fazenda e do Presidente do Banco Central como que a darem credibilidade ao dinheiro.

A credibilidade do rublo russo é legitimada pela águia de duas cabeças num carimbo do Banco Central da República. E na figura do urso polar guerreiro com sua machadinha de cabo longo.

“Os canhões, a quem podem assustar agora? / esses aí, tão ternos / seriam capazes de destruir?” (…) “Escutai, pois! Se as estrelas se acendem / é porque alguém precisa delas. / É porque, em verdade, é indispensável / que sobre todos os tetos, cada noite, / uma única estrela, pelo menos, se alumie”.

(Vladimir Maiakóvski, poeta russo).

Edson Vidigal, Advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal.

ARTIGO | A Igreja Inarredável

Um azul celeste deixando escapar pequenas nuvens brancas é o cenário próprio ao hino de amor à vida que as torres multicoloridas da Catedral de S. Basílio, como que flutuando sobre a Praça Vermelha atiçam a força da fé calibrando uma certeza – ainda vale a pena confiar na humanidade.

Encantados com a frase tirada por Lênin de um escrito de Marx – a religião é o ópio do povo, os bolcheviques, novos donos do poder na Rússia, transformaram a extinção da fé do povo em política de Estado.

Destruir igrejas, sinagogas, mesquitas, enfim qualquer espaço onde as pessoas se reunissem em profissão de fé, passou a ser programa de Governo. Religião, não mais.

O ativismo ateísta, armado pela propaganda, tornaria as pessoas mais vulneráveis ao catecismo do novo credo – a ditadura do proletariado. Assim, a classe operária por inteiro alcançaria logo o paraíso.

Lênin, codinome que Vladimir Ilych Ulyanov adotou em homenagem ao Rio Lena, na Sibéria, onde cumpriu pena por dois anos, acusado de conspiração, era fluente em alemão, inglês, francês. Formado em Direito, interessava-se também por economia.

Das teorias de Marx e Engels, Lênin fez um ensopado misturando socialismo com ingredientes da economia de mercado capitalista achando que daí viria o capitalismo de Estado. Viveu 53 anos. E seu Governo durou 6 anos.

O camarada Stálin, que o sucedeu, priorizou não só a perseguição a todas as religiões como também, ao mesmo tempo, a eliminação todos que ligados ao camarada Lênin pudessem, de algum modo, atrair rivalidades.

O camarada Leon Trotsky, possivelmente o mais culto entre os leninistas, correu o mundo que lhe foi possível, sem lugar onde se esconder da perseguição do camarada Stálin até ser assassinado a golpes de picareta no jardim da casa onde morava em seu asilo no México.

Parcerias na nova fé, irmãos camaradas!

Vendo ser impossível destruir todos os templos, Stálin pensou em adaptar alguns, modificando fachadas, para servirem como repartições da burocracia soviética. No mais, destruir as demais. Nada de templos para a fé religiosa. Era tudo casa de ópio, teorizava.

Assim, a Catedral de Cristo Salvador, a segunda igreja mais admirada de Moscou, cuja construção durou 66 anos, que sobreviveu à invasão destruidora das tropas de Napoleão em 1812, desabou em 5 de dezembro de l931sob a implosão ordenada por Stálin.

No lugar da Igreja de Cristo Salvador seria erguido o Palácio dos Sovietes, um colegiado surgido em 1905 no qual representantes do proletariado, incluindo militares, exerciam os poderes do legislativo e do executivo. Em 1917, Lênin proclamou – todo o poder aos sovietes. E foi com o apoio deles que Lênin consolidou o seu poder.

A Segunda Guerra para a qual Hitler imaginava Stálin neutro atirou os russos aos campos de batalha em reforço aos Aliados – Inglaterra, Estados Unidos, França, Brasil e outros, moveu para depois a construção do Palácio dos Sovietes.

Agora, finda guerra, já não havia dinheiro para a construção do Palácio. No lugar da Igreja haveria um piscinão. A força da fé do povo fez reerguer com seus próprios recursos a Catedral de Cristo Salvador, igualzinha ao que sempre foi e já se vão 200 anos.

O gênio macabro do camarada Stálin, cujas barbáries, assassinatos de milhares de dissidentes e de seguidores da fé cristã seriam depois reveladas ao mundo por Kruschev, insistiu na demolição da Catedral de S. Patrício. Houve reação inclusive dentro do Kremlim.

A Catedral de S. Patrício é essa maravilha da arquitetura russa construída sob a ordens de Ivan, o Terrível, entre 1555 e 1561, que o camarada Stálin insinuou desafiar.

Edson Vidigal, Advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal.

ARTIGO | Em Moscou, o touro de Wall Street

O espaço parece exíguo, porém suficiente a sua finalidade – tentar a que proves das iguarias tradicionais russas. Duas moçoilas em trajes típicos orientam as escolhas.

À entrada, um tremendo susto.

Discretamente num canto de pouca iluminação, um urso pardo, maior que eu, arreganhando os dentes, o olhar fixo, unhas afiadas, os braços esticados como se quisesse me agarrar. Só um susto. O bicho foi embalsamado.

A uns 04 quilômetros dali, na Praça Vermelha, está o mausoléu de Lênin, também embalsamado. Urso e Lênin ainda resistem na Rússia enquanto símbolos.

Na mesma Praça Vermelha há também o tumulo de John Reed, o jovem gringo que encantadíssimo com a vitória dos bolcheviques na guerra civil de 1917 escreveu um excelente livro-reportagem os “10 dias que abalaram o mundo”.

Manipulado e massacrado pela burocracia do novo Estado, Reed com a saúde enfraquecida, deprimido sob as incessantes humilhações e desencantos, contraiu tifo na Finlândia para onde foi mandado em missão do partido. Não resistiu até que morreu.

A máquina de propaganda do regime achou melhor reter o corpo do camarada Reed e sepultá-lo na Praça Vermelha próximo ao local onde seria o mausoléu de Lênin. Há um filme – “Reed” de Warren Beatty, disponível a indispensáveis reflexões.

Continuo achando graça quando vejo no crachá a grafia do meu nome em russo. O alfabeto é uma sequencia de letras, algumas conhecidas, ainda assim inservíveis, sem fonética alguma, a quem ouse juntá-las numa palavra ao menos.

É indispensável falar inglês. Não é que isso seja a chave suficiente a abrir todas as portas. Nas áreas de comércio há sempre alguém que pode entender. Nas lanchonetes e restaurantes são raros os garçons que manjam um pouco o inglês. Um broche na lapela com a bandeira do Reino Unido é a senha que identifica o rapaz ou a moça que ouve em inglês.

Não me deixa sozinho, Eurídice. Onde se fala inglês, é ela quem cuida de mim. Se acontece de ela não estar por perto e eu precisando me comunicar ou ser comunicado, não me intimido. “Spanish? Usted hablas? Español?” Ora, siô. Espanhol é comigo mesmo. Mas na Rússia ninguém, ou quase ninguém, fala espanhol.

Uma vez em Zacatecas, México, um cara me perguntou se eu era mexicano, perguntei por que, e ele disse porque eu falava espanhol muito bem. Estás ouvindo aí, Euridice? E ela, me derrubando o serviço, falou – ele está é te gozando.

Num presídio feminino de Cuba, depois de um show das presidiárias rumbeiras, agradeci discursando em espanhol. Estava lá Dom Dias, que não me deixa mentir.

O percurso que leva à Praça Vermelha se faz por extensa avenida de calçadas largas e as travessias para a outra margem, como em Brasília, são subterrâneas. Violinos e sanfonas nos soam peculiares. Jovens fazem seus sons em contornos de melodias românticas.

Aqueles prédios de arquitetura parecendo anteriores a 1917 respeitam o seu tempo, muitos deles só na fachada. Você entra e o que há lá dentro? Shopping.

Capitalismo de Estado é a definição mágica com a qual se imagina agora explicar a adoção de práticas outrora carimbadas como imperialistas ou burguesas pelos adeptos ou dirigentes de estados totalitários.

A questão não passou despercebida a Lênin para quem o capitalismo de Estado seria incomparavelmente superior ao sistema econômico de então, não mais, portanto, que um passo adiante na trilha socialista.

Na saída de um desses shoppings dei de cara com um outdoor enorme mostrando quase em tamanho real, imagina, o Charging Bull, aquele touro enfurecido de 3,5 toneladas de bronze, 4 metros de altura por 5 metros de comprimento – símbolo do capitalismo em Wall Street, Manhattan, Nova Iorque. Acho que comecei a entender.

Edson Vidigal, Advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal.

ARTIGO | Sem pressa de voltar

Confortável ate mais que os aviões dessas empresas que nos exploram sob a cumplicidade descarada das autoridades da regulação aérea no Brasil, o ônibus desliza no asfalto enquanto o meu olhar sem certeza de ultima vez deixa escorrer pela janela a mansidão das aguas do rio Moscou.

O amanhecer atira spot na paralisia das arvores às margens da estrada num cenário de quase ninguém e o calor em nada estrangeiro se assemelha ao comum da nossa ilha do amor, um pouco abaixo, talvez um pouco acima dos nossos 30 graus centigrados.

Faltam poucas horas para que os quatro dias e noites passados em Moscou se transmudem em fotografias e vídeos que a memória, filtrando-os aos poucos até a inutilidade final, apagará.

Parece haver disciplina em tudo. Da velocidade respeitando o limite da ordem ditada pelas placas em cada margem da estrada – 60 e não menos, nem mais que isso, à hora marcada para o desembarque final no aeroporto.

O olhar não se assusta com a enormidade da fachada, a grandiloquência arquitetônica como que programada a plantar em meio ao ufa de quem chega, uma primeira impressão boa.

Nisso, quero dizer na propaganda politica, os comunas foram craques. Digo foram, assim no passado, porque na Rússia dos últimos anos não se fala mais em comunismo. Nem Wladimir Putin, catapultado por Iéltsin entre o que havia de mais discreto na elite da KGB, o temível serviço secreto da então União Soviética, quis candidatar-se à continuidade no Kremlin pelo PC preferindo inscrever-se como candidato independente.

Na gangorra do poder com Medvedev, seu conterrâneo de São Petersburgo, Putin cumpre o mandato como Presidente enquanto Medvedev governa como Primeiro Ministro. E vice versa.

Politicamente, Medvedev estaria para Putin, mutatis mutandis, um pouco como Alexandre Costa, mesmo sem o poder estadual, sempre esteve no plano nacional para José Sarney. As mortes do poeta e economista Bandeira Tribuzi e de Alexandre Costa, grande na guerra e maior na paz, teriam infiltrado cupim na estrela politica do nosso bi imortal Presidente, o qual sem aqueles dois nunca mais teria sido o mesmo.

Na chegada à noite a Moscou quase não deu para avaliar o aeroporto como agora à luz do sol pouco antes do meio dia. Na chegada, o cansaço físico da longa viagem pode ter embaçado o interesse maior pelos detalhes, espaços e coisas.

A fachada enorme em horizonte de sinuosidades faz lembrar a quem conhece Brasília um pouco a paixão de Niemayer pelas curvas sensuais no concreto.

Àquela altura, o mais que eu queria era chegar logo ao hotel. Despejar o cansaço numa restauradora taça no restaurante sorvendo um bom vinho de La Rioja, espanhol.

Na manhã seguinte, pude saber quantos éramos, porque e como, afinal, chegáramos ali. Nos países onde atua o cartão de crédito empresarial com o qual o meu escritório de advocacia opera no Brasil houve sorteios entre clientes e assim foram formados grupos para assistirem, com direito a acompanhante e tudo 0800, aos jogos da Copa do Mundo na Rússia. Nada a ver com a CBF. Nem com a FIFA.

Para a finalíssima que acabou sendo disputada entre Croácia e França coube ao Brasil um grupo de 10 sorteados. O Brasil fora. Por quem torcer? Como diria o Major Tom, do poema de Bowie – a terra é azul e não há nada que eu possa fazer. A França na Rússia estava inteiramente azul. Viva la France!

E eu que não compro bilhete de rifa ou de loteria, que não entro em sorteio nem mesmo naqueles do cupom nos shoppings para ganhar carro zero no dia das mães, enfim, eu que não arrisco nada renunciando a todo jogo para não gastar a minha sorte, eu que nem sabia desse sorteio porque, afora ser apenas um dentre milhões de clientes de um cartão de crédito no mundo, não preenchi cupom, não fiz nada mesmo, nunca nem soube que haveria esse sorteio, custei muito a acreditar.

Vivemos aqui no Brasil numa sociedade em que a maioria não preza reservas de capital, lutando para equilibrar-se sob um  consumo sempre tentado ao além, amarrada no endividamento crescente, juros bancários, créditos consignados e quejandos.

Não são poucas as iscas com o que o consumo  tenta, sob os mais diversos conquanto manjados estratagemas lhe fisgar.

De repente te ligam querendo confirmação de dados porque tu foste sorteado para isso ou para aquilo e tal. Costumo repassar o contato para a minha mulher. A Eurídice é incrível no fino trato. Em circunstancias que tais, até que me esforço.

Quando a voz de moça me falou que eu havia sido sorteado e que procurasse o Banco do Brasil, recorri a um dos meus bordões, ouça moça, eu só cuido da produção, a minha mulher é quem cuida da gestão.

Não deu outra. Ligaram para a Eurídice, que de cara acreditou. Chegou em casa toda animada. Isso não pode ser verdade, é trote, fake-news, alguma picaretagem, disse eu. É sério, disse ela. Como ser verdade, se eu não assinei nada, não preenchi cupom nenhum e tal?

Aqueles momentos desfilavam lentamente na minha memória enquanto o ônibus em sua velocidade disciplinada parecendo até devorar lentamente os silêncios lá de fora, lentamente também parecia me inocular na memoria alguns sintomas de saudade.

No caminho da volta ninguém se perde. Falou José Américo, o Homem de Areia.

Edson Vidigal, Advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal.

ARTIGO – EDSON VIDIGAL | Noite de mascarados

Não eram como aquelas máscaras charmosas parecendo de louça de tão caprichado acabamento que nem aquelas máscaras dos carnavais de Veneza, a cidade aguada que ainda se mantém como se flutuasse sob suas histórias e lendas na geografia da Itália.

Máscara na origem, quero dizer no teatro grego, e também no teatro romano, servia para encobrir o rosto do ator que no enredo da peça em cartaz daria vida à personagem.

Com o tempo, o que se restringia ao teatro, no caso a máscara, ultrapassou as fronteiras dos palcos, ganhou os salões das festas, acobertou anonimatos nas alegrias das ruas e por que não, também, nos assaltos à mão armada.

A máscara dos assaltantes, é claro, dispensa sofisticação ou originalidade, sendo exemplo clássico a dos Irmãos Metralhas que, aliás, parecem trigêmeos, caras e focinhos iguais.

Na Ilha de São Luís houve um tempo em que as alegrias encabuladas ou extravasadas, dependentes de disfarces, sem outra saída, recorriam à máscara.
Eram muitos, nos carnavais, os bailes de mascarados nos subúrbios distantes. Anonimatos em segurança era por ali mesmo. Acontece que tem gente que se esconde atrás da máscara e como se diz sobre os bichanos acabam ficando com o rabo de fora. Ou seja, o que lhes delata é o rabo.
Gordo, magro, baixinho, altão, afinando ou engrossando a voz, por mais confiante que se mostre, o disfarce não convence.

Pelas tantas, os salões cheios, suor escorrendo e encharcando fofões, eis que num tom de voz afeminado um mascarado se dirige ao outro – eu te conheço, carnaval!

(Carnaval era o vocativo com o qual eles ou elas se tratavam entre si. No linguajar deles, equivalente, digamos assim, a vossa excelência, quem sabe?)
Como na marchinha do Chico, seja você quem for, seja o que Deus quiser, rolavam lances inimagináveis para a moral vigente de então.

Foi quando um Prefeito, o primeiro saído de um parto de urna, vontade do povo, voto direto, achando que iria agradar às famílias em suas sacralidades às descobertas, editou portaria proibindo máscaras nos bailes das periferias.

E não deu outra, – o povão reagiu revoltado. Primeiras páginas todo dia, repórteres de rádio nas portas dos bailes entrevistando mascarados. Naquele tempo, como diriam os evangelhos, ainda não havia TV-delivery.

Lembrei-me dos bailes de mascarados na Ilha do Amor enquanto assistia ontem pela televisão o desfile das personas ao microfone no plenário da Câmara dos Deputados declarando voto, sim ou não, ao arquivamento ou seguimento das acusações para tirar dos cargos o atual Presidente da República e dois dos seus mais achegados Ministros, confirmando ou não denúncias do então Procurador Geral da República, aquele que se celebrizou com aquela frase mais adequada hoje a beligerâncias selvagens de bem antes da entrada em cena de Diogo Alvares Correa, o Caramuru, – enquanto houver taboca, vai haver flecha!

Quando a tarde no planalto cansada da seca parecia bêbada pelos cantos de tanto esperar pela noite com suas invariáveis, nunca se viu tanta raiva mal ensaiada. Tanto de um lado quanto do outro.

Muita indignação. Como se aqueles atores ou atrizes encenassem uma peça de autoria anônima, quiçá coletiva, mas com direitos autorais reservados a cada um deles, traduzíveis em votos eleitorais. Ledo engano. Diga de lá, Ledo Ivo, meu grande poeta!
Como os antigos carnavalescos da Ilha do Amor, guardei o meu segredo, mas liberando o meu riso, fiz de conta que nem conhecia bem de perto muitos deles. Muitos mesmo, apesar das máscaras. Todas iguais.

Edson Vidigal, Advogado, foi Deputado Federal pelo Maranhão. E Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal.