Tecnologia a favor do esporte: como equipamentos da UFMA auxiliam na avaliação de atletas

Os resultados obtidos pelas avaliações centraram na prevenção ao risco de lesões, fator determinante para a manutenção do bom ritmo de jogo durante as partidas e forte característica do time no campeonato.

Câmera termográfica, fotocélula, analisador de gases, cronômetro de alta precisão. Não entendeu o que é tudo isso? Nós explicamos: esses foram alguns dos equipamentos usados pelo Grupo de Pesquisas em Genética e Esporte da UFMA (Genes) para acompanhar o rendimento dos atletas do clube Sampaio Corrêa durante a campanha que levou o time a ser campeão da Copa do Nordeste em 2018. Os resultados obtidos pelas avaliações centraram na prevenção ao risco de lesões, fator determinante para a manutenção do bom ritmo de jogo durante as partidas e forte característica do time no campeonato.

“É melhor a medicina preventiva do que a curativa”

Imagine um atleta com rendimento satisfatório, como o artilheiro de um clube de futebol, por exemplo. Ele está prestes a participar de um importante jogo que decidirá a possível classificação do seu time para uma final inédita, mas acaba se lesionando e precisa ficar afastado durante meses. Episódios como esses não são incomuns no cenário esportivo, mas muito deles poderiam ser prevenidos com o uso de uma câmera termográfica, um dos equipamentos utilizados pelo Genes no acompanhamento dos atletas.

O professor Mário Sevilio, coordenador do Genes, explicou como o material, por meio da termografia, auxilia na previsão ao risco de lesão. Basicamente, funciona da seguinte maneira: quando um atleta faz um exercício, a temperatura corporal aumenta e, em alguns casos, podem acontecer microlesões que geram um processo inflamatório, aumentando a temperatura no local específico. Tudo isso é captado pela câmera termográfica.

“Dependendo desse aumento de temperatura, nós temos postura mais conservadora com esse atleta. Ou seja, diminuímos a carga de treino, tiramos um dia para recuperação ou descanso, para que esse processo inflamatório desapareça e a sua musculatura se restabeleça”, explanou Sevilio.

Colocar um atleta nessas condições para atuar em jogos ou treinos pode causar um problema ainda maior que não pode não ser resolvido em curto prazo: “Se continuar insistindo no treino é bem provável que esse atleta se lesione. E então você vai perdê-lo por um tempo maior, uma vez que vai precisar ir para o departamento médico e ser tratado durante duas ou três semanas, ou até mais. Então é muito melhor a medicina preventiva do que a curativa”, frisou.

Identificação de problemas

Para além da prevenção de lesões, a identificação de problemas no condicionamento físico e na velocidade dos atletas auxilia no desenvolvimento da estratégica tática do time. Então entra em cena, ou melhor, em campo, a fotocélula, uma espécie de cronômetro de alta precisão – o mesmo usado nas corridas de Fórmula 1 – que avalia a velocidade do atleta em milissegundos.

“Em 30 metros é a arrancada do atleta. O equipamento tem quatro pares de tripés com laser e quando ele passa, aciona o cronômetro. Em cada barreira, ele fecha um circuito e abre outro, então nós temos informações como o tempo que ele levou para acelerar, o tempo que permaneceu naquela velocidade e em qual momento ele começa a cair”, explicou o professor.

Todas essas informações servem como parâmetro para entender a capacidade do atleta nas mais diversas modalidades e condições, o que permite a aplicação tática de acordo com o seu limite físico.

Exclusividade usada na pesquisa

Um dos equipamentos mais importantes do Genes no acompanhamento externo dos atletas, é o analisador de gases, sendo que existem apenas dois equipamentos desses ativos no Brasil, e aproximadamente outros 50 no mundo todo. Seu objetivo é avaliar a parte cardíaca, respiratória e metabólica.

A maior vantagem, no entanto, é ser portátil e poder acompanhar os atletas em condições ambientes diferentes. O desempenho de um jogador correndo em uma esteira em lugar fechado e climatizado difere do indivíduo realizando a mesma atividade à beira de uma praia, com influência do clima, de sons e demais fatores, acompanhando o comportamento cardiorrespiratório e metabólico do atleta em seu próprio local de treino.

Menor incômodo, maior precisão

Para acompanhamento da temperatura interna, normalmente são usadas as chamadas “sondas esofágicas”, que são introduzidas no nariz do atleta e seguem até o esôfago, enquanto faz o exercício acompanhado de alguém que segure o equipamento. Porém, com um termômetro especial utilizado atualmente no Brasil apenas pela UFMA e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), isso se tornou muito menos incômodo.

Os sensores de temperatura estão inseridos em uma cápsula cuja bateria dura 12 horas e é quase do tamanho de um comprimido, sendo que, ao ser ingerido pelo atleta, envia a temperatura interna, por meio da telemetria, para o seu avaliador. Essas informações ajudam a compreender a relação entre a temperatura interna e a externa do corpo, como explica o professor Mário.

“Você já tem duas fornalhas, uma é o estresse do ambiente, que já é um ambiente quente, e a outra que é o exercício que aumenta ainda mais a temperatura corporal. Esses dois fatores somados geram um grande estresse para o sistema cardiovascular, e dependendo da temperatura que esse indivíduo chegar, ele pode entrar numa faixa de risco de morte. Então nossos estudos são justamente na tentativa de buscar compreender esses mecanismos”, pontuou.

A contribuição acadêmica

O Genes teve início em 2014 e hoje tem cerca de 40 participantes, entre docentes e discentes dos cursos de Educação Física, Biologia, Fisioterapia e Psicologia. Com o apoio financeiro da Fapema, Capes, CNPQ e o Grupo Mateus, por meio da Lei de Incentivo ao Esporte promovido pelo Governo do Estado, o Grupo dá suporte, a diversos clubes maranhenses como o Moto Clube, Sampaio Corrêa e Imperatriz.

Atualmente, o Genes trabalha com diversas modalidades esportivas como o vôlei, o futebol, o triátlon, o atletismo e o badminton.

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